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Joaquim Tomaz
1927
Luanda
(Angola)
Em 1950
fui
trabalhar sozinho para Angola. Dois anos depois vim a Portugal para me
casar,
regressei a Angola com a minha mulher e lá tivemos quatro filhos, duas
raparigas e dois rapazes
Durante
estes anos trabalhei em vários sítios, mas o
que mais me marcou, foi o Centro de Informação e Turismo de Angola, que
ficava
em Luanda, na baía ao lado do porto de embarque. Estive lá a trabalhar
até
1974. Comecei como porteiro e passado pouco tempo fui promovido a
telefonista,
trabalho que eu adorei fazer.
Como eu
tinha boa aptidão para a condução, fui
promovido a motorista, que sempre foi o meu sonho. Nesta função
conduzia um
jipe Land-Rover com o qual percorri todo o território angolano, levando
fotógrafos, operadores de câmara, jornalistas e biólogos que iam
estudar e
reportar informações sobre Angola, que era editada numa revista mensal
distribuída para Portugal.
Para além desta minha função, também fui o motorista
dos elementos do governo que se deslocavam a Angola, nomeadamente o
Presidente
Américo Tomás. Quando foram trazidas para Luanda as primeiras pedras
lunares
recolhidas na Lua e trazidas para Terra pelos astronautas, fui eu que
as
transportei do aeroporto para a Feira Internacional de Angola.
O meu
último
trabalho para o CITA foi uma expedição durante um mês para o sul do
território
de Angola, junto com fotógrafos, um biólogo e dois geólogos holandeses;
percorremos vários parques nacionais de animais selvagens e aldeias
isoladas de
indígenas com etnias quase desconhecidas.
Uma dessas
etnias era os Bushquimanos;
não comunicavam por palavras mas sim com estalidos bocais. Não usavam
dinheiro,
apenas trocavam bens entre si. Demos-lhes um garrafão de vinho e eles
deram-nos
muitas oferendas, entre elas ovos de avestruz, máscaras de madeira,
marimbas
(instrumento musical), etc..
Em Junho
de 1974, apesar do 25 de Abril, vim com a
minha família de férias a Portugal. Estávamos cá quando se deu o
assalto ao
grande bairro onde morávamos. Os nossos pertences e haveres foram
roubados e
pilhados. Como a situação política se agravou bastante, regressei
sozinho a
Angola para me apresentar ao serviço.
Regressei
à minha casa, mas estava tudo
destruído e vandalizado, tive que ir viver para casa de um amigo. Num
dos dias
em que me apresentava ao serviço, mandaram-me levar um fotógrafo e
outros dois
colegas a uma zona de perigo. Recusei ir nesta missão.
O meu
colega que me
substituiu, bem como todo o resto da equipa, incluindo o jipe foram
dados como
desaparecidos, nunca chegaram a aparecer. Após saber disto, fugi para o
aeroporto e fiquei lá a aguardar passagem para Portugal, na ponte aérea
Lisboa-Luanda. Nunca mais voltei a Angola.
[Dedico
este
trabalho ao meu avô materno (16/07/1927 - 05/01/2009), por todas as
dificuldades e tristezas que passou na vida, sem nunca ter perdido a
alegria de
viver. Que isto seja, tanto para mim como para os outros, uma lição de
vida. O
meu avô era um homem muito alegre e brincalhão, nunca o vi aborrecer-se
com
ninguém.]
Depoimento
recolhido por Ana Costa
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Maria
Conceição
1909
Vidais
Chamo-me
Maria da Conceição Rodrigues, nasci em 1909 de uma família de origem
espanhola
e francesa.
Aos 7 anos
de idade, fui para Lisboa servir, ou seja, fui como criada de uma
família de
Lordes Ingleses, em cuja casa trabalhava comigo um jovem negro.
Quando eu
tinha 22 anos ele pediu-me em namoro, mas como eu era muito
brincalhona,
disse-lhe que aceitava, se ele se tornasse branco. Dizendo-lhe que se
ele se
lavasse com lixívia forte e uma escova, ficaria branco. Ele fez o que
eu lhe
disse, mas claro sendo negro não branqueava, ficou cheio de feridas.
Tendo ele
ido para o hospital, eu tive que fugir para a minha terra (Vidais), de
que
gosto muito e que foi onde conheci o meu marido com quem estive casada
55 anos,
e de quem tive quatro filhos. O meu marido já faleceu e eu ainda aqui
estou com 100 anos.
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Maria
Cambaio
1940
Beira,
Moçambique
Em 1963 eu
tinha 23 anos e fui para a cidade da Beira, em Moçambique. O meu marido
já lá
estava há três anos. A Beira era uma cidade linda, com culturas que
nunca
pensei existir. Quando lá cheguei, fiquei um pouco desiludida ao ver
que iria
viver no meio do mato, numa casa de madeira, rodeada de animais e entre
pessoas
de outra raça. O meu marido era dono de várias lojas de alimentos que
abasteciam a cidade; eu trabalhei numa delas. Vivíamos bem. Tínhamos
extensos
campos de cultivo de ananás, bananas, milho, etc. Tínhamos mesmo tudo
para ser
felizes, mas um dia recebi a notícia que o meu marido tinha morrido num
acidente de viação. Fiquei sozinha, de repente, a criar os meus dois
filhos; de
um momento para o outro ficámos sem nada; nem dinheiro tínhamos para
comer.
Quando se deu o vinte e cinco de Abril, quiseram matar-nos, mas as
pessoas das
tribos que viviam ali perto reuniram-se e não deixaram que ninguém nos
matasse;
tivemos de voltar para Portugal sem nada. Mas Moçambique ficou-me para
sempre
na memória.
Depoimento
recolhido por Beatriz Cambaio
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Luís
Ferreira
1929
Esta vinha
Quando eu
era rapaz a vida era muito difícil. Desde pequeno que eu vejo o meu pai
a
cuidar desta vinha, e eu até hoje tento cuidar dela com a mesma
dedicação que
um dia já vi o meu pai lhe deu.
Quando saí
da escola, comecei a trabalhar nela a empar, podar, provisar, echufrar,
cavar e
fazia de tudo um pouco. Na altura da vindima eram momentos vividos com
festa,
os vizinhos das redondezas ajudavam-se uns aos outros a vindimar;
depois da
apanha completa o trabalho continuava no lagar a pisar as uvas.
Hoje tenho
80 anos e esta vinha é muito importante para mim porque a minha vida
está aqui,
vivida nela.
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Ricardo
Lemos
1941
Lucélia,
Brasil
Eu morava
numa aldeia chamada Lucélia, no interior de São Paulo, Brasil. Ali, as
casas
eram todas feitas de madeira; os meus pais trabalhavam na colheita do
café e eu
desde dos meus 10 anos ajudava-os na colheita. Nessa altura, os pais é
que
escolhiam com quem os filhos iriam casar; eu casei-me muito novo, com
15 anos;
ela tinha 13 anos. Eu já gostava dela há algum tempo, mas a verdade é
que mesmo
que não gostasse, era obrigado a casar-me com ela. Os pais naquela
altura não
se importavam se o noivo ou a noiva tinham estudos ou não. O importante
nessa
época era que os homens fossem bons trabalhadores e as mulheres boas
donas de
casa. Naquele tempo, mesmo sem algumas condições, as pessoas tinham
muitos
filhos. Eu tive 11 filhos, mas um deles é adoptivo. Com o dinheiro que
eu e a
minha mulher conseguimos juntar, com as colheitas do café, conseguimos
comprar
uma casa na cidade, em Lucélia. Em Lucélia, naquele tempo algumas
estradas eram
feitas de terra, o meio de transporte que se utilizava muito era a
bicicleta e
a carroça. Arranjei um emprego num posto de sementes. Tínhamos uma vida
normal
como todos daquela altura, não passávamos necessidades porque as
crianças
contentavam-se com pouco; eu próprio fazia alguns brinquedos para elas.
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António
Simões
1941
Guiné-Bissau
Perdi
muitos
amigos na Guiné-Bissau, durante a guerra colonial. Mas apesar disso
sinto
saudades dos locais onde estive e que gostaria muito de voltar a
visitar.
Embarquei a 17 de Janeiro de 1962, estando onze meses na Guiné-Bissau e
treze
meses no mato, que eram as zonas de risco e de guerra. Todos os dias
eram
colocadas armadilhas, ou seja, minas de protecção à volta do quartel.
Éramos
muitas vezes atacados, quase todos os dias havia tiroteio, a nossa
melhor
defesa era uma estrada em volta do quartel para o proteger. Nessa
estrada, patrulhava
uma metralhadora que nos defendia dos inimigos que nos queriam expulsar
para
conseguir a independência da Guiné, pois naquela altura, a Guiné era
uma
colónia portuguesa e nós tínhamos a função de a defender. Mas de dia os
africanos fugiam para a Guiné Francesa, antiga colónia de França e aí
não
podíamos atacar. De noite, eles atacavam-nos e de manhã só
encontrávamos
cadáveres. Mas o nosso pior inimigo eram os mosquitos que nos picavam
constantemente, só se afastavam com o fumo do tabaco, por isso estava
sempre a
fumar. Cumpri os vinte e quatro meses que me foram destinados e
regressei a
Portugal.
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Etelvina
Maria
1918
Óbidos
Casamo-nos
a
21 de Janeiro de 1942; fomos muito felizes durante toda a nossa vida,
nunca
ralhámos nem discutimos um com o outro, fomos felicíssimos. Festejámos
as
nossas Bodas de Prata em 1967; lembro-me que reunimos a família toda e
amigos
mais chegados, para fazer um jantar. Fizemo-lo na nossa casa; era
pequenina mas
com boa vontade cabia lá toda gente. Eu estava feliz, tinha as minhas
filhas e
o meu marido comigo. O meu marido sempre trabalhou muito, foi viajante,
empregado nas minas de carvão e comerciante. No inicio eu tinha uma
tabacaria
na Vila de Óbidos. Quando as minhas filhas nasceram tive que contratar
uma
pessoa para ficar com elas, mas com o tempo aquilo deixou de dar
dinheiro e
então vendemos a tabacaria. A partir daí eu ficava em casa a cuidar das
meninas.
Em 1992
comemorámos as nossas Bodas de Ouro, fizemos uma festa pequenina, em
que eu fiz
questão de festejar na mesma casa onde já se tinham passada as de
Prata, pois
ambas foram datas muito importantes na minha vida, juntamos novamente a
família
e alguns amigos. Fomos felizes desde sempre. Mas passado algum tempo o
meu
marido acabou por falecer e eu ainda aqui estou. Sofri muito com a
morte dele
mas lembro muitas vezes, mesmo com esta idade, as nossas bodas de Prata
e de
Ouro e toda a nossa vida; tão felizes que nós fomos.
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Ana
Fernandes
1958
Lisboa
Lembro-me
que quando tinha por volta dos meus 12 anos, vivia num pequeno bairro
pobre que
era conhecido na altura como "Bairro do José Patrocínio".
Na altura
só
vivia com a minha mãe e com as minhas quatro irmãs.
A nossa
barraca era muito pequena, pois tinha cozinha, sala, dois quartos, um
deles no
sótão. A casa de banho situava-se na rua e usavam-na todas as pessoas
do nosso
bairro.
A minha
mãe
não tinha muito dinheiro para nos dar. Uma vez, num dia de escola os
meus
colegas estavam a comer um bolo e como eu não tinha dinheiro para
comprar um,
fiquei triste.
Ao pé da
escola havia uma senhora que vendia ovos em frente da sua casa. Sem
pensar duas
vezes, numa ocasião em que vi essa senhora a dirigir-se para dentro de
casa,
comecei a correr, peguei nuns ovos e fugi com eles.
A minha
ideia era vender aqueles ovos para ganhar algum dinheiro para poder
comprar e
comer um daqueles bolos. O problema é que a vendedora tinha-me visto a
surripiar-lhe os ovos e começou a gritar por mim. Não consegui correr
mais e
tive que voltar para trás e entregar-lhe os ovos. A senhora começou a
gritar
comigo, ainda lhe pedi desculpa, mas não me valeu de nada. Descobri
depois que,
ainda por cima, a vendedora conhecia a minha mãe.
Quando
cheguei mais tarde a minha casa, já a minha mãe sabia de tudo. Estava à
minha
espera sentada numa cadeira com uma verdasca na mão.
Jurei a
mim
mesma nunca mais voltar a fazer o mesmo.
Depoimento
recolhido por Patrícia Biscoito
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Maria
Isabel Morgado Clemente Caetano
1944
Vila
Nova de Ourém.
Quando
tinha 3 ou 4 anos, tinha uma casa onde morava com os meus pais, casa
essa com
um grande quintal; a minha mãe tinha coelhos, eu gostava muito de lhes
dar
comer e procurar no campo serralha (erva boa para eles comerem). Havia
também
um burro que andava à volta da nora para se tirar água; o burro não era
nosso,
mas eu gostava muito de vê-lo e dar-lhe festas. Tínhamos uma empregada
que me
fazia mobiliário pequeno em madeira e eu ficava encantada a vê-la a
trabalhar.
Dos
6 aos 12 anos mais ou menos, quando ia passar férias a casa dos meus
avós
paternos, entre as muitas coisas de que eu gostava, era andar no
baloiço que o
meu avô montava, ora na figueira ora na nogueira; para mim era tão bom
andar
horas a fio no baloiço! E não me esqueço quando lá estava e apanhava a
época
das vindimas, pois os meus avós residiam na zona do Cartaxo.
Depoimento
recolhido por Henrique
Maranhão
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António
Domingues
1932
Angola
O local
que
teve mais importância na minha vida foi quando fui para Angola. Tive de
ir para
a guerra, e deixar a minha família e amigos cá. Conheci novas culturas
e cresci
como pessoa. Um dos momentos mais divertidos e que nunca me esqueci,
foi quando
mostrei aos meus colegas de Angola o que era um "cinema", pois eles
nunca tinham visto nada parecido.
Montei um
ecrã lá na rua e meti a passar um filme. Houve um momento no filme onde
apareceu um comboio, e eles a achar que era verdadeiro começaram a
fugir e a
gritar.
Depoimento
recolhido por Sónia
Santos
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João
Galeão
1932
Luanda
O local
que
teve mais importância na minha vida foi talvez o meu local de trabalho
Direcção
dos Serviços de Economia de Angola, que ficava em Luanda, que era onde
eu
vivia. Eu era chefe de secção e a função que desempenhava em
conjunto com
as Alfândegas era muito importante, nomeadamente porque toda a
importação
relacionada com a economia de Angola, onde tudo o que era importado
para a
indústria (matéria-prima/ equipamento/ viaturas em trânsito, etc.)
tinha que
ter a minha autorização e assinatura. Caso não tivesse, não podia ser
importado
para Angola. Também foi muito importante a nível desportivo, porque em
Luanda
consagrei-me Campeão Nacional de hóquei em patins, algumas vezes como
jogador e
mais tarde como treinador, no Benfica de Luanda.
Depoimento
recolhido por Teresa Galeão
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Margarida
Maria Soares Domingos
1952
Tourinha
e Angola
Chamo-me
Margarida, nasci em 1952 mas só fui registada um ano mais tarde.
Sempre
tive ânsia de aprender. Como a minha mãe não tinha dinheiro para os
livros nem
para os cadernos, escrevia numa ardósia (pedra).
Muitas
vezes, quando chegava á escola, não havia registo do que tinha feito,
portanto
a minha professora castigava-me, batendo-me.
Eu
andava no primeiro ano, os tempos eram muito difíceis e a professora
tinha
livros para os mais pobres.
Um
dia, a professora disse que íamos fazer um ditado do livro do segundo
ano o
qual se intitulava “ a família” e eu como tinha vontade, muita vontade
de ter
esse livro, estudei e ganhei o livro tendo zero erros no ditado.
Quando
cheguei a casa e contei a minha mãe, ela ralhou-me e bateu-me por ter
desperdiçado uma tarde a estudar, em vez de ir apanhar ervas para os
animais,
(porco, vaca, burro …) Quando o meu pai chegou, eu contei-lhe e ele
ficou muito
contente e disse-me que tinha muita pena por não ter dinheiro para me
por a
estudar, e eu fiquei comovida com o que ouvi. Por eu falar tanto nessa
história, o meu filho, que é hoje formado em direito, foi á procura e
encontrou
esse livro na feira do livro em Lisboa e ofereceu-mo, que me deixou
muito
feliz.
Seis
anos mais tarde fui trabalhar para a quinta da Tourinha, na qual o meu
pai era
caseiro e tanoeiro de profissão, o que me fez desistir da escola. O meu
trabalho era na vinha, a vindimar com um cesto que o meu próprio pai
fez, e lá
fui eu ganhar 25 escudos por dia, sendo eu uma rapariga nova. Tudo o
que ganhei
foi para ajudar no sustento de família.
Quando
tinha 16 anos conheci o homem da minha vida. É o meu marido. Ele esteve
na
guerra do Ultramar, em Angola. Estive lá dois anos, foram anos de muita
angústia, tristeza e muitas alturas de alegria, quando tinha notícias
da sua
boa saúde. Estes dois anos pareceram intermináveis. Sofremos muito de
saudade e
inquietação.
Seis
meses depois de chegar, por infelicidade, ficou sem uma perna aos 23
anos de
idade, mas o amor era muito e lutamos contra tudo e todos e juntos
superamos as
dificuldades. Ele recuperou bem e hoje é um grande homem. Temos um
filho
advogado e uma filha empresaria. Somos felizes e vamos a caminho do
quarto
neto.
Depoimento
recolhido por Diogo
Ciência
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Maria
Isabel José Vieira
1942
Caldas
da Rainha.
O
sítio que teve mais importância para mim foi a minha casa, que fica nas
Caldas.
Eu fui para a escola com 7 anos e ia a pé do Imaginário, onde vivia
para a
escola que ficava nas Caldas. Fiz a escola até ao 3º ano e depois fui
servir
para uma casa particular em rio maior ate aos 13 anos. A partir dessa
idade
trabalhei na Secla. Como ainda não tinha idade para trabalhar tinha de
me
esconder dos fiscais. Trabalhei na Secla até aos meus 58 anos. Namorei
durante
dois anos e meio e casei-me no dia em que fiz 19 anos.
Tive
o meu primeiro filho aos 21 anos na altura que o meu marido embarcou
para ser
cozinheiro a bordo. Quando o meu filho nasceu no dia 17 de Janeiro, às
6 da
manhã o meu marido chegou nesse dia às 8 da manhã. Tive o meu segundo
filho
quando tinha 26 anos.
Quando
estava grávida da minha filha mais nova apanhei o maior susto da
minha
vida. Eu e a minha sogra andávamos no pinhal a cortar trancas dos
pinheiros,
quando o meu filho mais velho que tinha na altura cinco anos, passou
por baixo
e uma tranca caiu-lhe em cima. Fui com ele para o hospital e levou 17
pontos na
cabeça.
Lutei
muito sozinha, porque o meu marido nunca estava presente, mas com a
ajuda da
minha sogra que ficava com os meus filhos consegui superar esses
momentos
difíceis. Hoje agradeço porque tenho dois filhos que me dão muito
orgulho.
Depoimento
recolhido por Andreia
Vieira
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Maria
das Neves
1934
Mesquitela
- aldeia perto da fronteira com Espanha
Este
local foi muito marcante para mim, pois foi onde vivi a minha infância
e
adolescência.
A
minha família não era propriamente rica, por isso procurávamos utilizar
os
serviços de Espanha, que eram notavelmente mais baratos. Tentávamos
sempre
passar para lá às escondidas, pois, como sabem, na altura não era
permitido
sair do país, mas por vezes éramos apanhados. Quando nos apanhavam a
passar a
fronteira, os guardas espanhóis tiravam-nos os bens que trazíamos e
mandavam-nos de volta para Portugal.
Uma
vez fui a Espanha com uma prima para ir fazer uma permanente.
Demorávamos duas
horas a fazer o caminho a pé, mas já estávamos habituadas. Chegadas a
Espanha,
fomos cada uma para seu lado, fui fazer a minha permanente e ela foi às
compras. Encontrámo-nos uma hora depois, escondemos as compras que ela
trazia debaixo
da roupa, e partimos de volta para Portugal.
O
melhor caminho era por uns carreiros muito estreitos, perto da linha do
comboio. Fomos por aí. Mais ou menos a meio do caminho, ouvimos umas
vozes de
homens a falar espanhol. A minha prima, que era mais velha que eu,
agarrou-me
pelo braço e puxou-me para ao pé dela. Então depois percebi. Estávamos
perto de
uma seara de trigo bem alta e extensa. Sem grandes opções,
escondemo-nos nela
bem encolhidas à espera que os guardas passassem. Ficámos lá cerca de
um quarto
de hora.
Foi
uma daquelas experiências de que agora me rio, mas na altura não teve
graça
nenhuma.
Depoimento
recolhido por Jorge
Mota
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Maria Teresa
1935
Coimbra
Eu tinha
por volta de 20 anos, e durante um Verão,
pensei fazer serviço de guia interprete, com um grupo Alemão que veio
“por aí”.Tive
uma paixoneta assolapada por um tal Ortniw Jacob.
Ele era
loirinho e moreno de pele e nos
engraçamos os dois. As férias de Verão acabaram e ele foi para a
Alemanha. Eu
entretanto disse ao meu pai e á minha mãe, que ele era protestante, e o
meu pai
interveio dizendo que se eu continuasse o namoro com o Orteniw, iria
deixa de
me falar pelo facto de ele ser protestante. Perante tal situação optei
por
deixar o Ortevin , e pedi ao meu irmão para mandar uma carta para
acabar tudo
.E que todas as cartas que ele me mandasse fossem entregues à minha
mãe. Eu não
as queria ler. Passado algum tempo, eu não resisti, e fui ler uma carta
que ele
me tinha mandado, e nela ele informava-me do seu casamento com uma
alemã.
Tinham um filho.
Depoimento
recolhido por Rodrigo
Pinto
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Deolinda
da Conceição
1940.
Agualva
Um
lugar onde fui muito feliz foi em Agualva na zona do Cacém, apesar de
ser
natural de Dois portos, vila que fica perto de Bombarral.
Quando
eu era jovem, andava de terra em terra a fazer peças de teatro.
Essas
peças serviam para angariar dinheiro para materiais dos bombeiros,
incluindo
ambulâncias.
Uma
das peças que fiz, falava de uma história de uma família de ricos em
que eu
fazia de filha. E fiz muitas mais peças com papéis diferentes.
Cada
vez que havia uma nova ambulância para comprar para os bombeiros, eu
tinha de
dar as flores às madrinhas. Havia sempre grandes festas nestas
inaugurações e
peças de teatro a que não faltavam pessoas conhecidas.
Agora
com sessenta e nove anos relembro esse tempo em que tinha cerca de
treze anos.
O meu gosto pelo teatro nunca desapareceu.
Depoimento
recolhido por Jorge
Gregório
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João
Rodrigues
1934
Castanheira
de Pêra
O
lugar que teve maior importância para mim foi em Castanheira de Pêra
nos campos
de milho que por lá existiam.
Nesta época (quando eu era jovem) havia todos
os anos uma apanha do milho entre rapazes, raparigas, amigos, vizinhos;
era um
local onde estávamos todos juntos.
Era-nos
proibido estar com raparigas. Visto que do lado de fora, não se
conseguia ver o
interior dos campos de milho. Então, nós os rapazes, aproveitávamos
todas as
alturas para podermos estar com as raparigas.
Quando
a apanha do milho estava a ser feita, e saía um milho de cor,
normalmente
vermelho, era chamado “compadre”. Todas as noites, contávamos umas
anedotas
para passar o tempo e passados três dias de ser feita a descamisada do
milho
(as maçarocas eram abertas ao meio com uma espécie de agulha), o milho
era
colocado em panos pela rua.
Este
foi o local que teve para mim maior importância porque foi uma época em
que eu
pude estar com os meus amigos.
Depoimento
recolhido por Ana
Filipa
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Isaura Passos
1934
Brandara (Ponte de Lima)
Quando eu
tinha 15 anos vivia em Brandara, com
a minha família. Havia uma família muito rica que vivia em Lisboa mas
tinham
muitas quintas em Ponte de Lima. Nessa família havia muitos netos,
entre
rapazes e raparigas. Um dia, uma das netas fez anos e os seus avós
organizaram-lhe uma festa numa das quintas. Os avós dela vieram falar
comigo
para eu participar no rancho folclórico que ia haver na festa. Eu, no
princípio, não sabia se ia, mas afinal acabei por ir com a autorização
dos meus
pais. Nunca me tinha divertido tanto na minha vida e nunca mais me
esqueci
daquela festa. Foi a melhor coisa em que participei.
Depoimento
recolhido por Rodrigo
Patrício
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Isabel Cunha
1924
Lisboa
Nasci nas
Caldas da Rainha e com dois meses fui com os meus pais para Angola. Ali
conheci
um colega na escola muito estudioso e inteligente, e namorei com ele
dez anos.
Casei
e fui
muito feliz, tinha a vida que gostava. Vivia conforme as nomeações da
carreira
da magistratura, porque o meu marido era juiz e mudávamos de casa e de
terra
mais ou menos de três em três anos, por isso conheci muito bem o
Alentejo e
Beira Alta.
Tive duas
filhas; a mais velha nasceu em Montemor e a mais nova em Santa Comba
Dão.
Sentia-me muito feliz. Estivemos todos em Ponta Delgada e conheci todas
as ilhas
dos Açores.
Um dia no
Verão passávamos as férias em Santiago de Cacém. O meu marido e a minha
filha
tiveram um acidente de carro muito grave, então tudo mudou.
Felizmente
salvaram-se embora com muitas complicações, com fé em Deus, aguentei
tudo melhor
que pude. Treze anos depois o meu marido faleceu. Nesse momento, eu não
aguentei.
Deixei a minha casa, filhas e netos. E vim viver para as Caldas da
Rainha com a
minha mãe. Passados alguns anos veio o meu cunhado também viúvo. Foi
então que resolvemos
casar e viajar. Não para esquecer o que se passou, mas sim para
vivermos melhor.
Fernando
Cunha
1921
Tomar
Nasci
em Lisboa e fui logo para Évora, porque o meu pai era comandante da GNR
do
Alentejo e Algarve. Aos cinco anos voltei a Lisboa, e comecei a escola
primária
e depois a secundária, que depois continuei em Tomar para onde o meu
pai foi
transferido. Em Tomar vivi um dos melhores períodos da minha vida,
tendo depois
regressado a Lisboa para seguir o curso na escola superior. Só pude
terminar
esse curso por ter sido voluntário com os aliados na Segunda Guerra
Mundial. Fui
então enviado para África, onde permaneci vários anos como funcionário
da
administração do Congo-Belga.
Quando
voltei a Portugal, entrei para a fiscalização da segurança social,
sendo
promovido a chefe da brigada. Não gostava de trabalhar para a ditadura
e
aceitei uma oferta de emprego no governo da república da Colômbia, onde
permaneci vários anos a sofrer as dificuldades de uma guerra civil
muito
violenta. Fui depois para o Brasil trabalhar com uma companhia de
petróleos
americana.
A
minha profissão levou-me a estabelecer em vários países, tendo
regressado a
Portugal. Quando fiquei viúvo, procurei a minha cunhada também viúva e
resolvemos casar para nos ajudarmos um ao outro a refazer as nossas
vidas. Fizemos
algumas viagens nomeadamente a, Espanha, Itália, Países da Península
Arábica,
Canadá, Estados Unidos e Inglaterra.
Depoimentos
recolhidos por Maria
Carvalho
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Maria
da Glória Machado Simões do Couto
1940
Nampula
O
lugar que mais importância teve na sua vida foi Nampula,
Moçambique. Eu
adorei Moçambique. Foi onde nasceu o meu
filho; foi um lugar
que gostei, porque é muito bonito. Sempre trabalhei lá e foi aquele o
lugar de
que sempre gostei mais. Foi pena o 25 de Abril ter estragado tudo.
Hoje, se
pudesse, iria para lá novamente. Também gostei muito das praias e das
pessoas
em Moçambique que conviviam muito umas com as outras, foi o lugar onde
fui mais
feliz.
Depoimento
recolhido por André
Correia
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Jacinto dos
Santos
1932
Alvorninha
Um dos
sítios que me marcou para a vida foi Alvorninha. Eu, vivia numa
casa dos
meus pais, com os meus irmãos, e o meu irmão mais velho é que tomava
conta de
todos. Fiquei sem pai aos oito anos. Só depois disso é que fui para a
escola.
No meio de muitos irmãos, diziam que eu era o mais inteligente, por
isso é que
fui para a escola.
Um dia, o
meu irmão mais velho estava em casa a ler o meu livro da escola e eu
comecei a
ler mais depressa do que ele, e ele disse-me:"aprendes de cor, nunca
mais
vais à escola". Só andei lá seis meses, o suficiente para começar a
aprender a ler.
Quando
tinha
treze anos andava a trabalhar e tinha pena de não saber mais. Combinei
com mais
três colegas e fomos ter com um rapaz que tinha a quarta classe. Esse
rapaz
começou-nos a dar uma lição, duas horas por noite, durante o Inverno.
Ao fim de
dois meses a minha avó pediu-me para escrever uma carta para as amigas
dela que
moravam em Lisboa. Entretanto o meu amigo deixou de nos dar as lições,
mas eu
continuei sempre a ler.
Mais
tarde,
quando tinha dezassete anos fui aprender com outro rapaz, novamente
duas horas
por noite. Depois, quando fui para a tropa, fui logo para o grupo da
terceira classe.
E era muito bom aluno. Concluí a terceira classe. Depois da recruta
continuei
na escola da tropa e antes de me vir embora fiz a quarta classe.
Mais tarde
fui lá buscar o diploma que me serviu para poder tirar a carta de
condução e
desenvolver o meu negócio. Hoje, sou reformado, vivo na minha casa nas
Caldas
da Rainha, com a minha mulher, e leio o meu jornal todas as semanas
Depoimento
recolhido por Andreia Mendes
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Amílcar
Manuel Alves de Figueiredo
1929
Guiné
Fui para a
Guiné aos 24 anos, e a minha forma de vida a partir daquela data, mudou
completamente.
Essa nova vivência nunca mais foi esquecida. Passei muitas histórias
lá. Conto
uma. Um dia, fui caçar para o mato com dois caçadores. Quando fui fazer
pontaria a uma galinha-do-mato, surgiu a segui-la uma ninhada de filhos
de
galinha-do-mato e chocou-me tanto ver a família de galinhas-do-mato que
não consegui
matar a família. Aquela podia ser a minha família.
Depoimento
recolhido por Maria João Figueiredo
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Maria
Isabel Bento da Costa
1958
Bélgica
Nasci
no extinto Hospital de Santo Isidoro nas Caldas da Rainha, sendo
registada na
freguesia da morada dos meus pais em A-Dos-Francos.
Tive
uma infância difícil como tantas crianças, com o pai ausente em França
uma mãe
trabalhadora no campo. Um tio com problemas mentais e alcoólico, uma
avó
alcoólica e uma irmã mais nova.
Fiz
a escola obrigatória (quarta classe) tendo sido uma aluna razoável. Não
fui
autorizada pelos meus pais a continuar a estudar apesar dos pedidos da
minha
professora, que viria a ser durante alguns anos mais a minha
confessora, e
conselheira mesmo depois da escola terminar.
Fui
uma adolescente um pouco rebelde. Crescendo sem o pai por perto, fui
trabalhando por cá , no campo , depois na então fabrica Frami. Aos 17
anos
impus aos meus pais:”ou me deixam emigrar ou saio de casa!“
E
então fui para a Bélgica, país que muito gostei, trabalhei quase sempre
clandestina e passei por situações de expulsão por duas vezes.
Em
1978, após três anos como emigrante voltei para o nosso país com muitas
dificuldades de trabalhar e adaptar, pois mesmo após o 25 de Abril, as
coisas
ainda eram bem diferentes do que conhecera na Bélgica.
Entretanto
casei e tive uma filha que mais tarde levei para a Bélgica com o pai
dela. Ela
fez lá os 5 anos e depois voltámos. Como tínhamos ido para a Bélgica
ilegais,
passados dois dias de sair da Bélgica a policia veio à nossa procura.
Depoimento
recolhido por Rafael Correia
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António
Domingues
1931
Cortem
Quando
eu tinha uns 11 anos, vivia em casa com o meu pai, a minha irmã e o meu
irmão.
A minha mãe nessa altura não estava em casa porque passou muito tempo
no
hospital, doente. Como eu era o filho mais velho, ficava responsável
pelos meus
irmãos, sempre que o meu pai ia trabalhar.
Numa
tarde, quando cheguei a casa, não vi a minha irmã (que tinha oito anos)
em lado
nenhum. Procurei-a, mas não encontrei. Como não sabia onde é que ela
estava, e
o meu pai estava quase a chegar, com medo de ouvir ralhar fui-me
esconder
debaixo da cama. Acabei por adormecer, entretanto o meu pai chegou com
a minha
irmã, que tinha estado com a minha tia. Eu nunca mais aparecia e eles
foram à
minha procura até ser de noite. De manhã, quando acordei e saí de baixo
da
cama, acabei por ouvir ralhar na mesma. Já não por não saber da minha
irmã, mas
por me ter escondido e assim fazer com que andassem à minha procura até
perto
da meia-noite. Para mim serviu de lição, cheguei à conclusão que
esconder-me
para evitar os problemas, não resolve nada.
Depoimento
recolhido por Sónia Santos
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Luís
Tomás
1922
Castelo
Branco
Naquela
altura eu fornecia no quartel de Castelo Branco barris de vinho. E
depois
seguia para Coimbra. Um dia, era já noite ia eu com o meu ajudante num
camião.
Mas a dada altura acabou-se o gasóleo e como estávamos bastante longe
de um
posto de abastecimento tivemos de parar.
Essa
estrada onde faltou o gasóleo era um sítio muito perigoso, pois era
muito
isolado, e corria o boato das pessoas e os camionistas serem assaltados
constantemente e muitas pessoas acabavam feridas.
Talvez
por causa disso, ninguém parava para ajudar a ir buscar o combustível,
pois as
pessoas tinham medo e cada vez ficava mais escuro.
A
certa altura um veículo, um táxi, finalmente parou. Pedi-lhe para levar
o meu
ajudante às bombas de gasolina, pois precisávamos de combustível e o
taxista
resolveu ajudar-nos.
Quando
voltou, vinham com ele dois homens e o meu ajudante também. Quando os
vi
perguntei qual a razão de trazer aquelas pessoas, e ele respondeu-me
assustado,
que nesta estrada onde estávamos havia muitos enganos e poderiam querer
fazer
mal. Então vinham os três.
Depois
de abastecer o camião, chegámos a Coimbra. Deixei uns barris de vinho
ao chefe
da Manutenção Militar do aprovisionamento.
Continuávamos
nós a nossa viagem de regresso a casa quando, de repente, o cabo do
acelerador
partiu, e tive de fazer uma grande travagem. Havia muito gelo, pois era
Inverno
e estava muito frio.
Como
não havia comunicações, a família já estava bastante aflita e bastante
preocupada com a nossa grande demora. Estava a nevar tanto que, naquela
escuridão, mal conseguíamos encontrar lenha para nos aquecermos. Quando
finalmente encontrámos alguma, acendemos uma pequena fogueira.
Mais
tarde, sobre a madrugada, por volta das quatro da manhã passou um
automóvel com
pessoas que, por acaso, eram da minha família e que felizmente nos
reconheceram.
Voltaram para trás e pedi-lhes que ligassem à minha mulher a explicar o
sucedido. Já bastante aflita, ela não sabia como reagir, nem o que
fazer.
Nós
estávamos sem alimento, apenas tínhamos comido alguma coisa no posto de
abastecimento, na noite anterior.
Como
ainda nevava tivemos de colocar umas mantas à nossa volta para nos
aquecermos,
pois estávamos enregelados e pálidos. Tinha sido uma noite horrível e
inesquecível.
Depoimento
recolhido por Joana
Antunes
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Maria
do Carmo Correia
1951
Sancheira
Grande
O
local mais importante da minha vida foi a minha casa, só tinha três
assoalhadas
quando fui para lá viver, foi nela que nasceram os meus três filhos.
O
primeiro filho nasceu quando o meu marido estava na guerra, eu só tinha
17 anos
e vivia com os meus pais, ele voltou dois anos mais tarde.
Passado
algum tempo o meu marido emigrou para a Alemanha, fiquei sozinha em
minha casa
com os meus três filhos, voltou 3 meses depois.
Quando
um dos meus filhos tinha 18 anos emigrou para a Suíça.
Um
dos momentos mais felizes da minha vida foi o nascimento dos meus seis
netos.
Hoje
a minha casa está completamente remodelada e foi-se acrescentando ao
longo dos
anos, conforme as necessidades e as possibilidades, está maior e muito
mais
cómoda, mas, olhando para trás, por lá passaram todas as coisas boas e
más da
minha vida.
Depoimento
recolhido por Pedro
Duarte
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João Chaves
1930
Benguela (Angola)
Nasci nas
Caldas da Rainha, mas o lugar que mais importância teve na minha vida
foi
Benguela (Angola), pois, ali vivi durante cerca 50 anos. Benguela é uma
cidade
antiga, situada no litoral de Angola, perto da cidade do Lobito e
tradicionalmente amistosa. Quando do período antes da independência
assisti a
vários confrontos militares que atingiram a casa onde eu vivia, mas
felizmente
não causaram dados pessoais. Por causa disso, tive que alterar a minha
vida
toda e a da minha família, pois tornou-se impossível continuar lá a
viver. Viemos
todos para Portugal sem nada, pois perdemos tudo por causa da guerra. A
chegada
a Portugal foi muito difícil, pois para além das dificuldades
financeiras,
também foi difícil a adaptação ao clima; foi terrível.
Depoimento
recolhido por Mafalda Filipa Chaves Barros
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