Joaquim Tomaz Maria Conceição Maria Cambaio
Luís Ferreira Ricardo Lemos António Simões
Etelvina Maria
Ana Fernandes Maria Isabel Caetano
António Domingues João Galeão Margarida Domingos
Maria Isabel Vieira Maria das Neves Maria Teresa
Deolinda da Conceição João Rodrigues Isaura Passos
Isabel Cunha Fernando Cunha Maria da Glória Couto
Jacinto dos Santos Amílcar Figueiredo Maria Isabel Costa
António Domingues (Cortem)
Luís Tomás Maria do Carmo Correia
João Chaves




Joaquim Tomaz

1927

Luanda (Angola)

 

Em 1950 fui trabalhar sozinho para Angola. Dois anos depois vim a Portugal para me casar, regressei a Angola com a minha mulher e lá tivemos quatro filhos, duas raparigas e dois rapazes

Durante estes anos trabalhei em vários sítios, mas o que mais me marcou, foi o Centro de Informação e Turismo de Angola, que ficava em Luanda, na baía ao lado do porto de embarque. Estive lá a trabalhar até 1974. Comecei como porteiro e passado pouco tempo fui promovido a telefonista, trabalho que eu adorei fazer.

Como eu tinha boa aptidão para a condução, fui promovido a motorista, que sempre foi o meu sonho. Nesta função conduzia um jipe Land-Rover com o qual percorri todo o território angolano, levando fotógrafos, operadores de câmara, jornalistas e biólogos que iam estudar e reportar informações sobre Angola, que era editada numa revista mensal distribuída para Portugal.


Para além desta minha função, também fui o motorista dos elementos do governo que se deslocavam a Angola, nomeadamente o Presidente Américo Tomás. Quando foram trazidas para Luanda as primeiras pedras lunares recolhidas na Lua e trazidas para Terra pelos astronautas, fui eu que as transportei do aeroporto para a Feira Internacional de Angola.

O meu último trabalho para o CITA foi uma expedição durante um mês para o sul do território de Angola, junto com fotógrafos, um biólogo e dois geólogos holandeses; percorremos vários parques nacionais de animais selvagens e aldeias isoladas de indígenas com etnias quase desconhecidas.

Uma dessas etnias era os Bushquimanos; não comunicavam por palavras mas sim com estalidos bocais. Não usavam dinheiro, apenas trocavam bens entre si. Demos-lhes um garrafão de vinho e eles deram-nos muitas oferendas, entre elas ovos de avestruz, máscaras de madeira, marimbas (instrumento musical), etc..

Em Junho de 1974, apesar do 25 de Abril, vim com a minha família de férias a Portugal. Estávamos cá quando se deu o assalto ao grande bairro onde morávamos. Os nossos pertences e haveres foram roubados e pilhados. Como a situação política se agravou bastante, regressei sozinho a Angola para me apresentar ao serviço.

Regressei à minha casa, mas estava tudo destruído e vandalizado, tive que ir viver para casa de um amigo. Num dos dias em que me apresentava ao serviço, mandaram-me levar um fotógrafo e outros dois colegas a uma zona de perigo. Recusei ir nesta missão.

O meu colega que me substituiu, bem como todo o resto da equipa, incluindo o jipe foram dados como desaparecidos, nunca chegaram a aparecer. Após saber disto, fugi para o aeroporto e fiquei lá a aguardar passagem para Portugal, na ponte aérea Lisboa-Luanda. Nunca mais voltei a Angola.

 

[Dedico este trabalho ao meu avô materno (16/07/1927 - 05/01/2009), por todas as dificuldades e tristezas que passou na vida, sem nunca ter perdido a alegria de viver. Que isto seja, tanto para mim como para os outros, uma lição de vida. O meu avô era um homem muito alegre e brincalhão, nunca o vi aborrecer-se com ninguém.]

 

Depoimento recolhido por Ana Costa



Maria Conceição

1909

Vidais

 

Chamo-me Maria da Conceição Rodrigues, nasci em 1909 de uma família de origem espanhola e francesa.

Aos 7 anos de idade, fui para Lisboa servir, ou seja, fui como criada de uma família de Lordes Ingleses, em cuja casa trabalhava comigo um jovem negro.

Quando eu tinha 22 anos ele pediu-me em namoro, mas como eu era muito brincalhona, disse-lhe que aceitava, se ele se tornasse branco. Dizendo-lhe que se ele se lavasse com lixívia forte e uma escova, ficaria branco. Ele fez o que eu lhe disse, mas claro sendo negro não branqueava, ficou cheio de feridas. Tendo ele ido para o hospital, eu tive que fugir para a minha terra (Vidais), de que gosto muito e que foi onde conheci o meu marido com quem estive casada 55 anos, e de quem tive quatro filhos. O meu marido já faleceu e eu ainda aqui estou com 100 anos.





Maria Cambaio

1940

Beira, Moçambique

 

Em 1963 eu tinha 23 anos e fui para a cidade da Beira, em Moçambique. O meu marido já lá estava há três anos. A Beira era uma cidade linda, com culturas que nunca pensei existir. Quando lá cheguei, fiquei um pouco desiludida ao ver que iria viver no meio do mato, numa casa de madeira, rodeada de animais e entre pessoas de outra raça. O meu marido era dono de várias lojas de alimentos que abasteciam a cidade; eu trabalhei numa delas. Vivíamos bem. Tínhamos extensos campos de cultivo de ananás, bananas, milho, etc. Tínhamos mesmo tudo para ser felizes, mas um dia recebi a notícia que o meu marido tinha morrido num acidente de viação. Fiquei sozinha, de repente, a criar os meus dois filhos; de um momento para o outro ficámos sem nada; nem dinheiro tínhamos para comer. Quando se deu o vinte e cinco de Abril, quiseram matar-nos, mas as pessoas das tribos que viviam ali perto reuniram-se e não deixaram que ninguém nos matasse; tivemos de voltar para Portugal sem nada. Mas Moçambique ficou-me para sempre na memória.

 

Depoimento recolhido por Beatriz Cambaio





Luís Ferreira

1929

Esta vinha

 

Quando eu era rapaz a vida era muito difícil. Desde pequeno que eu vejo o meu pai a cuidar desta vinha, e eu até hoje tento cuidar dela com a mesma dedicação que um dia já vi o meu pai lhe deu.

Quando saí da escola, comecei a trabalhar nela a empar, podar, provisar, echufrar, cavar e fazia de tudo um pouco. Na altura da vindima eram momentos vividos com festa, os vizinhos das redondezas ajudavam-se uns aos outros a vindimar; depois da apanha completa o trabalho continuava no lagar a pisar as uvas.

Hoje tenho 80 anos e esta vinha é muito importante para mim porque a minha vida está aqui, vivida nela.




Ricardo Lemos

1941

Lucélia, Brasil

 

Eu morava numa aldeia chamada Lucélia, no interior de São Paulo, Brasil. Ali, as casas eram todas feitas de madeira; os meus pais trabalhavam na colheita do café e eu desde dos meus 10 anos ajudava-os na colheita. Nessa altura, os pais é que escolhiam com quem os filhos iriam casar; eu casei-me muito novo, com 15 anos; ela tinha 13 anos. Eu já gostava dela há algum tempo, mas a verdade é que mesmo que não gostasse, era obrigado a casar-me com ela. Os pais naquela altura não se importavam se o noivo ou a noiva tinham estudos ou não. O importante nessa época era que os homens fossem bons trabalhadores e as mulheres boas donas de casa. Naquele tempo, mesmo sem algumas condições, as pessoas tinham muitos filhos. Eu tive 11 filhos, mas um deles é adoptivo. Com o dinheiro que eu e a minha mulher conseguimos juntar, com as colheitas do café, conseguimos comprar uma casa na cidade, em Lucélia. Em Lucélia, naquele tempo algumas estradas eram feitas de terra, o meio de transporte que se utilizava muito era a bicicleta e a carroça. Arranjei um emprego num posto de sementes. Tínhamos uma vida normal como todos daquela altura, não passávamos necessidades porque as crianças contentavam-se com pouco; eu próprio fazia alguns brinquedos para elas.




António Simões

1941

Guiné-Bissau

 

Perdi muitos amigos na Guiné-Bissau, durante a guerra colonial. Mas apesar disso sinto saudades dos locais onde estive e que gostaria muito de voltar a visitar. Embarquei a 17 de Janeiro de 1962, estando onze meses na Guiné-Bissau e treze meses no mato, que eram as zonas de risco e de guerra. Todos os dias eram colocadas armadilhas, ou seja, minas de protecção à volta do quartel. Éramos muitas vezes atacados, quase todos os dias havia tiroteio, a nossa melhor defesa era uma estrada em volta do quartel para o proteger. Nessa estrada, patrulhava uma metralhadora que nos defendia dos inimigos que nos queriam expulsar para conseguir a independência da Guiné, pois naquela altura, a Guiné era uma colónia portuguesa e nós tínhamos a função de a defender. Mas de dia os africanos fugiam para a Guiné Francesa, antiga colónia de França e aí não podíamos atacar. De noite, eles atacavam-nos e de manhã só encontrávamos cadáveres. Mas o nosso pior inimigo eram os mosquitos que nos picavam constantemente, só se afastavam com o fumo do tabaco, por isso estava sempre a fumar. Cumpri os vinte e quatro meses que me foram destinados e regressei a Portugal.




Etelvina Maria

1918

Óbidos

 

Casamo-nos a 21 de Janeiro de 1942; fomos muito felizes durante toda a nossa vida, nunca ralhámos nem discutimos um com o outro, fomos felicíssimos. Festejámos as nossas Bodas de Prata em 1967; lembro-me que reunimos a família toda e amigos mais chegados, para fazer um jantar. Fizemo-lo na nossa casa; era pequenina mas com boa vontade cabia lá toda gente. Eu estava feliz, tinha as minhas filhas e o meu marido comigo. O meu marido sempre trabalhou muito, foi viajante, empregado nas minas de carvão e comerciante. No inicio eu tinha uma tabacaria na Vila de Óbidos. Quando as minhas filhas nasceram tive que contratar uma pessoa para ficar com elas, mas com o tempo aquilo deixou de dar dinheiro e então vendemos a tabacaria. A partir daí eu ficava em casa a cuidar das meninas.

Em 1992 comemorámos as nossas Bodas de Ouro, fizemos uma festa pequenina, em que eu fiz questão de festejar na mesma casa onde já se tinham passada as de Prata, pois ambas foram datas muito importantes na minha vida, juntamos novamente a família e alguns amigos. Fomos felizes desde sempre. Mas passado algum tempo o meu marido acabou por falecer e eu ainda aqui estou. Sofri muito com a morte dele mas lembro muitas vezes, mesmo com esta idade, as nossas bodas de Prata e de Ouro e toda a nossa vida; tão felizes que nós fomos.




Ana Fernandes

1958

Lisboa

 

Lembro-me que quando tinha por volta dos meus 12 anos, vivia num pequeno bairro pobre que era conhecido na altura como "Bairro do José Patrocínio".

Na altura só vivia com a minha mãe e com as minhas quatro irmãs.

A nossa barraca era muito pequena, pois tinha cozinha, sala, dois quartos, um deles no sótão. A casa de banho situava-se na rua e usavam-na todas as pessoas do nosso bairro.

A minha mãe não tinha muito dinheiro para nos dar. Uma vez, num dia de escola os meus colegas estavam a comer um bolo e como eu não tinha dinheiro para comprar um, fiquei triste.

Ao pé da escola havia uma senhora que vendia ovos em frente da sua casa. Sem pensar duas vezes, numa ocasião em que vi essa senhora a dirigir-se para dentro de casa, comecei a correr, peguei nuns ovos e fugi com eles.

A minha ideia era vender aqueles ovos para ganhar algum dinheiro para poder comprar e comer um daqueles bolos. O problema é que a vendedora tinha-me visto a surripiar-lhe os ovos e começou a gritar por mim. Não consegui correr mais e tive que voltar para trás e entregar-lhe os ovos. A senhora começou a gritar comigo, ainda lhe pedi desculpa, mas não me valeu de nada. Descobri depois que, ainda por cima, a vendedora conhecia a minha mãe.

Quando cheguei mais tarde a minha casa, já a minha mãe sabia de tudo. Estava à minha espera sentada numa cadeira com uma verdasca na mão.

Jurei a mim mesma nunca mais voltar a fazer o mesmo.

 

Depoimento recolhido por Patrícia Biscoito



Maria Isabel Morgado Clemente Caetano

1944

Vila Nova de Ourém.

 

Quando tinha 3 ou 4 anos, tinha uma casa onde morava com os meus pais, casa essa com um grande quintal; a minha mãe tinha coelhos, eu gostava muito de lhes dar comer e procurar no campo serralha (erva boa para eles comerem). Havia também um burro que andava à volta da nora para se tirar água; o burro não era nosso, mas eu gostava muito de vê-lo e dar-lhe festas. Tínhamos uma empregada que me fazia mobiliário pequeno em madeira e eu ficava encantada a vê-la a trabalhar.

Dos 6 aos 12 anos mais ou menos, quando ia passar férias a casa dos meus avós paternos, entre as muitas coisas de que eu gostava, era andar no baloiço que o meu avô montava, ora na figueira ora na nogueira; para mim era tão bom andar horas a fio no baloiço! E não me esqueço quando lá estava e apanhava a época das vindimas, pois os meus avós residiam na zona do Cartaxo.

 

Depoimento recolhido por Henrique Maranhão



António Domingues

1932

Angola

 

O local que teve mais importância na minha vida foi quando fui para Angola. Tive de ir para a guerra, e deixar a minha família e amigos cá. Conheci novas culturas e cresci como pessoa. Um dos momentos mais divertidos e que nunca me esqueci, foi quando mostrei aos meus colegas de Angola o que era um "cinema", pois eles nunca tinham visto nada parecido.

Montei um ecrã lá na rua e meti a passar um filme. Houve um momento no filme onde apareceu um comboio, e eles a achar que era verdadeiro começaram a fugir e a gritar.

 

Depoimento recolhido por Sónia Santos



João Galeão

1932

Luanda

 

O local que teve mais importância na minha vida foi talvez o meu local de trabalho Direcção dos Serviços de Economia de Angola, que ficava em Luanda, que era onde eu vivia. Eu era chefe de secção e a função que desempenhava em conjunto com as Alfândegas era muito importante, nomeadamente porque toda a importação relacionada com a economia de Angola, onde tudo o que era importado para a indústria (matéria-prima/ equipamento/ viaturas em trânsito, etc.) tinha que ter a minha autorização e assinatura. Caso não tivesse, não podia ser importado para Angola. Também foi muito importante a nível desportivo, porque em Luanda consagrei-me Campeão Nacional de hóquei em patins, algumas vezes como jogador e mais tarde como treinador, no Benfica de Luanda.

 

Depoimento recolhido por Teresa Galeão



Margarida Maria Soares Domingos

1952

Tourinha e Angola

 

Chamo-me Margarida, nasci em 1952 mas só fui registada um ano mais tarde.

Sempre tive ânsia de aprender. Como a minha mãe não tinha dinheiro para os livros nem para os cadernos, escrevia numa ardósia (pedra).

Muitas vezes, quando chegava á escola, não havia registo do que tinha feito, portanto a minha professora castigava-me, batendo-me.

Eu andava no primeiro ano, os tempos eram muito difíceis e a professora tinha livros para os mais pobres.

Um dia, a professora disse que íamos fazer um ditado do livro do segundo ano o qual se intitulava “ a família” e eu como tinha vontade, muita vontade de ter esse livro, estudei e ganhei o livro tendo zero erros no ditado.

Quando cheguei a casa e contei a minha mãe, ela ralhou-me e bateu-me por ter desperdiçado uma tarde a estudar, em vez de ir apanhar ervas para os animais, (porco, vaca, burro …) Quando o meu pai chegou, eu contei-lhe e ele ficou muito contente e disse-me que tinha muita pena por não ter dinheiro para me por a estudar, e eu fiquei comovida com o que ouvi. Por eu falar tanto nessa história, o meu filho, que é hoje formado em direito, foi á procura e encontrou esse livro na feira do livro em Lisboa e ofereceu-mo, que me deixou muito feliz.

Seis anos mais tarde fui trabalhar para a quinta da Tourinha, na qual o meu pai era caseiro e tanoeiro de profissão, o que me fez desistir da escola. O meu trabalho era na vinha, a vindimar com um cesto que o meu próprio pai fez, e lá fui eu ganhar 25 escudos por dia, sendo eu uma rapariga nova. Tudo o que ganhei foi para ajudar no sustento de família.

Quando tinha 16 anos conheci o homem da minha vida. É o meu marido. Ele esteve na guerra do Ultramar, em Angola. Estive lá dois anos, foram anos de muita angústia, tristeza e muitas alturas de alegria, quando tinha notícias da sua boa saúde. Estes dois anos pareceram intermináveis. Sofremos muito de saudade e inquietação.

Seis meses depois de chegar, por infelicidade, ficou sem uma perna aos 23 anos de idade, mas o amor era muito e lutamos contra tudo e todos e juntos superamos as dificuldades. Ele recuperou bem e hoje é um grande homem. Temos um filho advogado e uma filha empresaria. Somos felizes e vamos a caminho do quarto neto.

 

Depoimento recolhido por Diogo Ciência



Maria Isabel José Vieira

1942

Caldas da Rainha.

 

O sítio que teve mais importância para mim foi a minha casa, que fica nas Caldas. Eu fui para a escola com 7 anos e ia a pé do Imaginário, onde vivia para a escola que ficava nas Caldas. Fiz a escola até ao 3º ano e depois fui servir para uma casa particular em rio maior ate aos 13 anos. A partir dessa idade trabalhei na Secla. Como ainda não tinha idade para trabalhar tinha de me esconder dos fiscais. Trabalhei na Secla até aos meus 58 anos. Namorei durante dois anos e meio e casei-me no dia em que fiz 19 anos.

Tive o meu primeiro filho aos 21 anos na altura que o meu marido embarcou para ser cozinheiro a bordo. Quando o meu filho nasceu no dia 17 de Janeiro, às 6 da manhã o meu marido chegou nesse dia às 8 da manhã. Tive o meu segundo filho quando tinha 26 anos.

Quando estava grávida da minha filha  mais nova apanhei o maior susto da minha vida. Eu e a minha sogra andávamos no pinhal a cortar trancas dos pinheiros, quando o meu filho mais velho que tinha na altura cinco anos, passou por baixo e uma tranca caiu-lhe em cima. Fui com ele para o hospital e levou 17 pontos na cabeça.

Lutei muito sozinha, porque o meu marido nunca estava presente, mas com a ajuda da minha sogra que ficava com os meus filhos consegui superar esses momentos difíceis. Hoje agradeço porque tenho dois filhos que me dão muito orgulho.

 

Depoimento recolhido por Andreia Vieira



Maria das Neves

1934

Mesquitela - aldeia perto da fronteira com Espanha

 

Este local foi muito marcante para mim, pois foi onde vivi a minha infância e adolescência.

A minha família não era propriamente rica, por isso procurávamos utilizar os serviços de Espanha, que eram notavelmente mais baratos. Tentávamos sempre passar para lá às escondidas, pois, como sabem, na altura não era permitido sair do país, mas por vezes éramos apanhados. Quando nos apanhavam a passar a fronteira, os guardas espanhóis tiravam-nos os bens que trazíamos e mandavam-nos de volta para Portugal.

Uma vez fui a Espanha com uma prima para ir fazer uma permanente. Demorávamos duas horas a fazer o caminho a pé, mas já estávamos habituadas. Chegadas a Espanha, fomos cada uma para seu lado, fui fazer a minha permanente e ela foi às compras. Encontrámo-nos uma hora depois, escondemos as compras que ela trazia debaixo da roupa, e partimos de volta para Portugal.

O melhor caminho era por uns carreiros muito estreitos, perto da linha do comboio. Fomos por aí. Mais ou menos a meio do caminho, ouvimos umas vozes de homens a falar espanhol. A minha prima, que era mais velha que eu, agarrou-me pelo braço e puxou-me para ao pé dela. Então depois percebi. Estávamos perto de uma seara de trigo bem alta e extensa. Sem grandes opções, escondemo-nos nela bem encolhidas à espera que os guardas passassem. Ficámos lá cerca de um quarto de hora.

Foi uma daquelas experiências de que agora me rio, mas na altura não teve graça nenhuma.

 

Depoimento recolhido por Jorge Mota



Maria Teresa

1935

Coimbra

 

Eu tinha por volta de 20 anos, e durante um Verão, pensei fazer serviço de guia interprete, com um grupo Alemão que veio “por aí”.Tive uma paixoneta assolapada por um tal Ortniw Jacob.

Ele era loirinho e moreno de pele e nos engraçamos os dois. As férias de Verão acabaram e ele foi para a Alemanha. Eu entretanto disse ao meu pai e á minha mãe, que ele era protestante, e o meu pai interveio dizendo que se eu continuasse o namoro com o Orteniw, iria deixa de me falar pelo facto de ele ser protestante. Perante tal situação optei por deixar o Ortevin , e pedi ao meu irmão para mandar uma carta para acabar tudo .E que todas as cartas que ele me mandasse fossem entregues à minha mãe. Eu não as queria ler. Passado algum tempo, eu não resisti, e fui ler uma carta que ele me tinha mandado, e nela ele informava-me do seu casamento com uma alemã. Tinham um filho.

 

Depoimento recolhido por Rodrigo Pinto



Deolinda da Conceição

1940.

Agualva

 

Um lugar onde fui muito feliz foi em Agualva na zona do Cacém, apesar de ser natural de Dois portos, vila que fica perto de Bombarral.

Quando eu era jovem, andava de terra em terra a fazer peças de teatro.

Essas peças serviam para angariar dinheiro para materiais dos bombeiros, incluindo ambulâncias.

Uma das peças que fiz, falava de uma história de uma família de ricos em que eu fazia de filha. E fiz muitas mais peças com papéis diferentes.

Cada vez que havia uma nova ambulância para comprar para os bombeiros, eu tinha de dar as flores às madrinhas. Havia sempre grandes festas nestas inaugurações e peças de teatro a que não faltavam pessoas conhecidas.

Agora com sessenta e nove anos relembro esse tempo em que tinha cerca de treze anos. O meu gosto pelo teatro nunca desapareceu.

 

Depoimento recolhido por Jorge Gregório



João Rodrigues

1934

Castanheira de Pêra

 

O lugar que teve maior importância para mim foi em Castanheira de Pêra nos campos de milho que por lá existiam.

 Nesta época (quando eu era jovem) havia todos os anos uma apanha do milho entre rapazes, raparigas, amigos, vizinhos; era um local onde estávamos todos juntos.

Era-nos proibido estar com raparigas. Visto que do lado de fora, não se conseguia ver o interior dos campos de milho. Então, nós os rapazes, aproveitávamos todas as alturas para podermos estar com as raparigas.

Quando a apanha do milho estava a ser feita, e saía um milho de cor, normalmente vermelho, era chamado “compadre”. Todas as noites, contávamos umas anedotas para passar o tempo e passados três dias de ser feita a descamisada do milho (as maçarocas eram abertas ao meio com uma espécie de agulha), o milho era colocado em panos pela rua.

Este foi o local que teve para mim maior importância porque foi uma época em que eu pude estar com os meus amigos.

 

Depoimento recolhido por Ana Filipa



Isaura Passos

1934

Brandara (Ponte de Lima)


Quando eu tinha 15 anos vivia em Brandara, com a minha família. Havia uma família muito rica que vivia em Lisboa mas tinham muitas quintas em Ponte de Lima. Nessa família havia muitos netos, entre rapazes e raparigas. Um dia, uma das netas fez anos e os seus avós organizaram-lhe uma festa numa das quintas. Os avós dela vieram falar comigo para eu participar no rancho folclórico que ia haver na festa. Eu, no princípio, não sabia se ia, mas afinal acabei por ir com a autorização dos meus pais. Nunca me tinha divertido tanto na minha vida e nunca mais me esqueci daquela festa. Foi a melhor coisa em que participei.

 

Depoimento recolhido por Rodrigo Patrício



Isabel Cunha

1924

Lisboa

 

Nasci nas Caldas da Rainha e com dois meses fui com os meus pais para Angola. Ali conheci um colega na escola muito estudioso e inteligente, e namorei com ele dez anos.

Casei e fui muito feliz, tinha a vida que gostava. Vivia conforme as nomeações da carreira da magistratura, porque o meu marido era juiz e mudávamos de casa e de terra mais ou menos de três em três anos, por isso conheci muito bem o Alentejo e Beira Alta.

Tive duas filhas; a mais velha nasceu em Montemor e a mais nova em Santa Comba Dão. Sentia-me muito feliz. Estivemos todos em Ponta Delgada e conheci todas as ilhas dos Açores.

Um dia no Verão passávamos as férias em Santiago de Cacém. O meu marido e a minha filha tiveram um acidente de carro muito grave, então tudo mudou.

Felizmente salvaram-se embora com muitas complicações, com fé em Deus, aguentei tudo melhor que pude. Treze anos depois o meu marido faleceu. Nesse momento, eu não aguentei. Deixei a minha casa, filhas e netos. E vim viver para as Caldas da Rainha com a minha mãe. Passados alguns anos veio o meu cunhado também viúvo. Foi então que resolvemos casar e viajar. Não para esquecer o que se passou, mas sim para vivermos melhor.

 

Fernando Cunha

1921

Tomar

 

Nasci em Lisboa e fui logo para Évora, porque o meu pai era comandante da GNR do Alentejo e Algarve. Aos cinco anos voltei a Lisboa, e comecei a escola primária e depois a secundária, que depois continuei em Tomar para onde o meu pai foi transferido. Em Tomar vivi um dos melhores períodos da minha vida, tendo depois regressado a Lisboa para seguir o curso na escola superior. Só pude terminar esse curso por ter sido voluntário com os aliados na Segunda Guerra Mundial. Fui então enviado para África, onde permaneci vários anos como funcionário da administração do Congo-Belga.

Quando voltei a Portugal, entrei para a fiscalização da segurança social, sendo promovido a chefe da brigada. Não gostava de trabalhar para a ditadura e aceitei uma oferta de emprego no governo da república da Colômbia, onde permaneci vários anos a sofrer as dificuldades de uma guerra civil muito violenta. Fui depois para o Brasil trabalhar com uma companhia de petróleos americana.

A minha profissão levou-me a estabelecer em vários países, tendo regressado a Portugal. Quando fiquei viúvo, procurei a minha cunhada também viúva e resolvemos casar para nos ajudarmos um ao outro a refazer as nossas vidas. Fizemos algumas viagens nomeadamente a, Espanha, Itália, Países da Península Arábica, Canadá, Estados Unidos e Inglaterra.

 

Depoimentos recolhidos por Maria Carvalho


Maria da Glória Machado Simões do Couto

1940

Nampula

 
O lugar que mais importância teve na sua vida foi Nampula, Moçambique. Eu adorei Moçambique. Foi onde nasceu o meu filho; foi um lugar que gostei, porque é muito bonito. Sempre trabalhei lá e foi aquele o lugar de que sempre gostei mais. Foi pena o 25 de Abril ter estragado tudo. Hoje, se pudesse, iria para lá novamente. Também gostei muito das praias e das pessoas em Moçambique que conviviam muito umas com as outras, foi o lugar onde fui mais feliz.

 
Depoimento recolhido por
André Correia



Jacinto dos Santos

1932

Alvorninha

 

Um dos sítios que me marcou para a vida foi Alvorninha. Eu, vivia numa casa dos meus pais, com os meus irmãos, e o meu irmão mais velho é que tomava conta de todos. Fiquei sem pai aos oito anos. Só depois disso é que fui para a escola. No meio de muitos irmãos, diziam que eu era o mais inteligente, por isso é que fui para a escola.

Um dia, o meu irmão mais velho estava em casa a ler o meu livro da escola e eu comecei a ler mais depressa do que ele, e ele disse-me:"aprendes de cor, nunca mais vais à escola". Só andei lá seis meses, o suficiente para começar a aprender a ler.

Quando tinha treze anos andava a trabalhar e tinha pena de não saber mais. Combinei com mais três colegas e fomos ter com um rapaz que tinha a quarta classe. Esse rapaz começou-nos a dar uma lição, duas horas por noite, durante o Inverno.

Ao fim de dois meses a minha avó pediu-me para escrever uma carta para as amigas dela que moravam em Lisboa. Entretanto o meu amigo deixou de nos dar as lições, mas eu continuei sempre a ler.

Mais tarde, quando tinha dezassete anos fui aprender com outro rapaz, novamente duas horas por noite. Depois, quando fui para a tropa, fui logo para o grupo da terceira classe. E era muito bom aluno. Concluí a terceira classe. Depois da recruta continuei na escola da tropa e antes de me vir embora fiz a quarta classe.

Mais tarde fui lá buscar o diploma que me serviu para poder tirar a carta de condução e desenvolver o meu negócio. Hoje, sou reformado, vivo na minha casa nas Caldas da Rainha, com a minha mulher, e leio o meu jornal todas as semanas

 

Depoimento recolhido por Andreia Mendes



Amílcar Manuel Alves de Figueiredo

1929

Guiné

 

Fui para a Guiné aos 24 anos, e a minha forma de vida a partir daquela data, mudou completamente. Essa nova vivência nunca mais foi esquecida. Passei muitas histórias lá. Conto uma. Um dia, fui caçar para o mato com dois caçadores. Quando fui fazer pontaria a uma galinha-do-mato, surgiu a segui-la uma ninhada de filhos de galinha-do-mato e chocou-me tanto ver a família de galinhas-do-mato que não consegui matar a família. Aquela podia ser a minha família.

 

Depoimento recolhido por Maria João Figueiredo



Maria Isabel Bento da Costa

1958

Bélgica

 

Nasci no extinto Hospital de Santo Isidoro nas Caldas da Rainha, sendo registada na freguesia da morada dos meus pais em A-Dos-Francos.

Tive uma infância difícil como tantas crianças, com o pai ausente em França uma mãe trabalhadora no campo. Um tio com problemas mentais e alcoólico, uma avó alcoólica e uma irmã mais nova.

Fiz a escola obrigatória (quarta classe) tendo sido uma aluna razoável. Não fui autorizada pelos meus pais a continuar a estudar apesar dos pedidos da minha professora, que viria a ser durante alguns anos mais a minha confessora, e conselheira mesmo depois da escola terminar.

Fui uma adolescente um pouco rebelde. Crescendo sem o pai por perto, fui trabalhando por cá , no campo , depois na então fabrica Frami. Aos 17 anos impus aos meus pais:”ou me deixam emigrar ou saio de casa!“

E então fui para a Bélgica, país que muito gostei, trabalhei quase sempre clandestina e passei por situações de expulsão por duas vezes.

Em 1978, após três anos como emigrante voltei para o nosso país com muitas dificuldades de trabalhar e adaptar, pois mesmo após o 25 de Abril, as coisas ainda eram bem diferentes do que conhecera na Bélgica.

Entretanto casei e tive uma filha que mais tarde levei para a Bélgica com o pai dela. Ela fez lá os 5 anos e depois voltámos. Como tínhamos ido para a Bélgica ilegais, passados dois dias de sair da Bélgica a policia veio à nossa procura.

 

Depoimento recolhido por Rafael Correia


António Domingues

1931

Cortem

 

Quando eu tinha uns 11 anos, vivia em casa com o meu pai, a minha irmã e o meu irmão. A minha mãe nessa altura não estava em casa porque passou muito tempo no hospital, doente. Como eu era o filho mais velho, ficava responsável pelos meus irmãos, sempre que o meu pai ia trabalhar.

Numa tarde, quando cheguei a casa, não vi a minha irmã (que tinha oito anos) em lado nenhum. Procurei-a, mas não encontrei. Como não sabia onde é que ela estava, e o meu pai estava quase a chegar, com medo de ouvir ralhar fui-me esconder debaixo da cama. Acabei por adormecer, entretanto o meu pai chegou com a minha irmã, que tinha estado com a minha tia. Eu nunca mais aparecia e eles foram à minha procura até ser de noite. De manhã, quando acordei e saí de baixo da cama, acabei por ouvir ralhar na mesma. Já não por não saber da minha irmã, mas por me ter escondido e assim fazer com que andassem à minha procura até perto da meia-noite. Para mim serviu de lição, cheguei à conclusão que esconder-me para evitar os problemas, não resolve nada.

 

Depoimento recolhido por Sónia Santos


Luís Tomás

1922

Castelo Branco

 

Naquela altura eu fornecia no quartel de Castelo Branco barris de vinho. E depois seguia para Coimbra. Um dia, era já noite ia eu com o meu ajudante num camião. Mas a dada altura acabou-se o gasóleo e como estávamos bastante longe de um posto de abastecimento tivemos de parar.

Essa estrada onde faltou o gasóleo era um sítio muito perigoso, pois era muito isolado, e corria o boato das pessoas e os camionistas serem assaltados constantemente e muitas pessoas acabavam feridas.

Talvez por causa disso, ninguém parava para ajudar a ir buscar o combustível, pois as pessoas tinham medo e cada vez ficava mais escuro.

A certa altura um veículo, um táxi, finalmente parou. Pedi-lhe para levar o meu ajudante às bombas de gasolina, pois precisávamos de combustível e o taxista resolveu ajudar-nos.

Quando voltou, vinham com ele dois homens e o meu ajudante também. Quando os vi perguntei qual a razão de trazer aquelas pessoas, e ele respondeu-me assustado, que nesta estrada onde estávamos havia muitos enganos e poderiam querer fazer mal. Então vinham os três.

Depois de abastecer o camião, chegámos a Coimbra. Deixei uns barris de vinho ao chefe da Manutenção Militar do aprovisionamento.

Continuávamos nós a nossa viagem de regresso a casa quando, de repente, o cabo do acelerador partiu, e tive de fazer uma grande travagem. Havia muito gelo, pois era Inverno e estava muito frio.

Como não havia comunicações, a família já estava bastante aflita e bastante preocupada com a nossa grande demora. Estava a nevar tanto que, naquela escuridão, mal conseguíamos encontrar lenha para nos aquecermos. Quando finalmente encontrámos alguma, acendemos uma pequena fogueira.

Mais tarde, sobre a madrugada, por volta das quatro da manhã passou um automóvel com pessoas que, por acaso, eram da minha família e que felizmente nos reconheceram. Voltaram para trás e pedi-lhes que ligassem à minha mulher a explicar o sucedido. Já bastante aflita, ela não sabia como reagir, nem o que fazer.

Nós estávamos sem alimento, apenas tínhamos comido alguma coisa no posto de abastecimento, na noite anterior.

Como ainda nevava tivemos de colocar umas mantas à nossa volta para nos aquecermos, pois estávamos enregelados e pálidos. Tinha sido uma noite horrível e inesquecível.

 

Depoimento recolhido por Joana Antunes


Maria do Carmo Correia 

1951

Sancheira Grande

 

O local mais importante da minha vida foi a minha casa, só tinha três assoalhadas quando fui para lá viver, foi nela que nasceram os meus três filhos.

O primeiro filho nasceu quando o meu marido estava na guerra, eu só tinha 17 anos e vivia com os meus pais, ele voltou dois anos mais tarde.

Passado algum tempo o meu marido emigrou para a Alemanha, fiquei sozinha em minha casa com os meus três filhos, voltou 3 meses depois.

Quando um dos meus filhos tinha 18 anos emigrou para a Suíça.

Um dos momentos mais felizes da minha vida foi o nascimento dos meus seis netos.

Hoje a minha casa está completamente remodelada e foi-se acrescentando ao longo dos anos, conforme as necessidades e as possibilidades, está maior e muito mais cómoda, mas, olhando para trás, por lá passaram todas as coisas boas e más da minha vida.

 

Depoimento recolhido por Pedro Duarte


João Chaves

1930

Benguela (Angola)

 

Nasci nas Caldas da Rainha, mas o lugar que mais importância teve na minha vida foi Benguela (Angola), pois, ali vivi durante cerca 50 anos. Benguela é uma cidade antiga, situada no litoral de Angola, perto da cidade do Lobito e tradicionalmente amistosa. Quando do período antes da independência assisti a vários confrontos militares que atingiram a casa onde eu vivia, mas felizmente não causaram dados pessoais. Por causa disso, tive que alterar a minha vida toda e a da minha família, pois tornou-se impossível continuar lá a viver. Viemos todos para Portugal sem nada, pois perdemos tudo por causa da guerra. A chegada a Portugal foi muito difícil, pois para além das dificuldades financeiras, também foi difícil a adaptação ao clima; foi terrível.

 

Depoimento recolhido por Mafalda Filipa Chaves Barros





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