Naomi Posinova
lido por: Andreia Ribeiro de Noronha


O meu nome é Naomi Posinova  e nasci em Praga, na Checoslováquia no dia 4 de Janeiro de 1932. Não tenho irmãos e o meu pai tem uma loja de chapéus e chama-se Max. A minha mãe chama-se Raquel. Gosto muito de Praga, uma cidade grande e com muita vida. A comunidade de judeus em Praga é muito activa e bem sucedida.

Quando a guerra começou e a Alemanha ocupou Praga, em Março de 1939, foram publicadas e afixadas nas paredes cartazes com leis anti-judaicas. A primeira coisa que fizeram foi o despedimento de todos os judeus que deixaram de poder ter emprego. Todas as nossas posses foram imediatamente confiscadas. Ficámos sem nada. 

Deixámos de poder participar em encontros culturais, ir à missa. Proibiram-nos de ir à escola. Deixámos de poder utilizar transportes públicos e mesmo de utilizar o telefone. Depois começou a evacuação de judeus. Entre Outubro de 1941 e Março os alemães expulsaram 46 mil judeus e levaram-nos para campos de concentração.

Em Agosto de 1942, eu e os meus pais fomos levados de comboio em vagões de transporte de animais para o ghetto de Theresienstadt, na Checoslováquia. Autorizaram o meu pai a trabalhar na fábrica de chapéus. Apesar de ser obrigatório que todas as crianças com a partir dos dez anos fossem obrigadas a trabalhar, a minha mãe continuou os meus estudos em casa. As condições de sobrevivência neste campo eram horríveis. Cada cama, de madeira e palha, era ocupada por três pessoas, todos os espaços estavam sobrelotados de gente. Não havia comida suficiente e as condições de higiene eram repugnantes. O pior de tudo era as doenças. Espalhavam-se com enorme velocidade. Para evitar o contágio, os alemães faziam “selecções” diárias de doentes que eram levados para os campos de morte de Auschwitz e Treblinka. Nunca mais os vimos.

Nos finais de 1944 e inícios de 1945, eu e os meus pais fomos “seleccionados” para irmos para Auschwitz. Quando lá chegámos, separaram-nos do meu pai e disseram-me a mim e à minha mãe para nos dirigirmos aos balneários públicos, para um banho.

Naomi foi executada na câmara de gás juntamente com a sua mãe.
Tinha doze anos.

Alfred Kristeller
lido por: Diogo Filipe Domingos Ciência


O meu nome é Alfred Kristeller, A minha mãe chama-se Ilse Gomperts e o meu pai é  Adolph Kristeller. Os meus pais são judeus e sempre viveram na Alemanha, em Dusseldorf. Quando os nazis foram para o poder, a minha família emigrou para Amesterdão, n a Holanda em 1933, muito antes da guerra começar. O meu pai era bancário e trabalhava para o Deutsche Bank.

Antes da ocupação alemã os judeus na Holanda eram muito respeitados e considerados iguais por toda a gente. Desde há séculos que os judeus ali viviam. Muita da riqueza de Amesterdão foi criada por industriais e empresários judeus. Quando os alemães invadiram a Holanda eu tinha dois anos de idade. Imediatamente se percebeu que tudo ia mudar. Foram publicadas leis duríssimas contra os judeus. Todos os alunos e professores de origem judia foram publicamente humilhados e expulsos das escolas e das universidades. Todas as contas bancárias dos judeus foram confiscadas. Todos os judeus foram imediatamente postos no desemprego. 

Quando começaram os actos de violência contra os judeus, os holandeses sentiram-se revoltados. Houve greves, mesmo, contra esses abusos. Mas os nazis eliminaram brutalmente todos quantos participavam nesses primeiros protestos.

Eu e a minha família, juntamente com o resto dos judeus de Amesterdão, fomos obrigados a abandonar a nossa casa e ir viver num apartamento pequenino na parte velha de Amesterdão, de onde não poderíamos nunca sair. Era o Ghetto. Nesse prédio viviam muitas famílias. O meu apartamento era partilhado com mais duas famílias. A partir de Maio de 1942 foram forçados a usar uma estrela de David no braço, símbolo do judaísmo, para serem identificados na rua e humilhados. No fim desse ano perto de 40 mil judeus tinham sido levados da Holanda para campos de morte na Polónia. Muitas famílias holandesas arriscaram a sua vida tentando esconder judeus, especialmente crianças. São heróis. Quase todos foram apanhados e executados pelos nazis. 

Eu e os meus pais fomos um dia levados para o campo de concentração de Sobibor, na Polónia. Levaram-nos em carruagens de gado. A viagem demorou vários dias. Estávamos todos comprimidos uns contra os outros e faltava o ar porque havia apenas uma abertura. Houve um senhor e uma criança que morreram durante a viagem. As pessoas gritaram para que retirassem os cadéveres mas ninguém abriu a porta. Fazíamos as necessidades à vista de todos num balde a um canto do vagão. 

Quando Alfred e os pais chegaram a Sobibor foram conduzidos a uma câmara de gás e executados. Alfred tinha cinco anos de idade.
 


 

Abraham Beem
lido por: Rafael Filipe Costa Correia


O meu nome é Abraham Beem, sou o filho de Hartog e Rosette Beem. Eu tinha cinco anos quando os alemães invadiram a Holanda em Maio de 1940. Os judeus da Holanda estavam muito bem integrados na população e participávamos da vida cultural e social como qualquer outra pessoa, de outra religião. O meu pai era professor de liceu na pequena cidade de Leeuwarden, no norte da Holanda.

Quando os alemães chegaram, começaram imediatamente a organizar formas de separar os judeus do resto da população. A partir de 1940, proibiram que se fizesse quaisquer negócios com os judeus e despediram-nos de quase todas as profissões. Os ricos tornaram-se pobres e todos quantos pertenciam à classe média tornaram-se mendigos.

No princípio da invasão, alguns holandeses ainda tentaram reagir contra as medidas anunciadas pelos alemães, mas a reacção dos invasores foi brutal e quase toda a resistência foi aniquilada.

Durante os meses de Julho de 1941 os judeus foram obrigados a viver em áreas fechadas da cidade chamada ghetto. Para sermos mais fáceis de identificar e brutalizar, todos nós, judeus passámos a ter de usar uma estrela amarela no braço. A partir de Julho de 1942 os alemães começaram a juntar judeus para nos levar para campos de trabalho. A maioria dos meus amigos nunca regressou desses campos, onde forma executados.

Os meus pais decidiram que a família deveria esconder-se. Perceberam que nós, as crianças, tínhamos mais possibilidades de escapar à morte se fingíssemos não ser judeus numa cidadezinha rural do interior da Holanda. 
Eu e a minha irmã fomos enviados para a vila de Ermelo.

Ali, uma família cristã, que arriscou a sua vida para nos salvar, aceitou receber-nos. A mim deram-me um novo nome Jan de Witt e pude ir à escola com outros meninos. Os nazis perceberam que muitas crianças tinham sido escondidas deste modo e intensificaram a busca de crianças judias clandestinas.

Um dia, os vizinhos da minha nova família acusaram-nos de estarem a esconder crianças que não eram suas. Eu tinha 9 anos quando eles me denunciaram, em Fevereiro de 1944.

Abraham e Eva Beem, foram deportados para o campo de Auschwitz, na Polónia. Mal lá chegaram, foram assassinados nas câmaras de gás.
 


 

Margot Heuman
lido por: Teresa Maria Caldeira Corrreia Galeão


O meu nome é Margot Heuman, filha de Johanna e Carl Heuman. O meu pai era um empresário de sucesso e a minha mãe era doméstica. Eu e a minha irmã mais nova, Lore, passávamos o dia com a minha mãe.

Quando Hitler chegou ao poder em 1933, eu tinha cinco anos de idade. As leis contra os judeus tornaram a nossa vida muito difícil. Muitos amigos fugiram do país, mas outros achavam que a situação era só temporária. Que acabaria em breve. Muitos judeus tinham nascido na Alemanha e nunca imaginaram que Hitler e os nazis permanecessem no poder por muito tempo. Outros não queriam deixar o país e abandonar o resto da família.

Em 1935 saíram as leis de Nuremberga. Estas leis retiraram todos os direitos de cidadania aos judeus alemães. A maioria dos meus amigos e nós ficámos muito pobres de repente porque fomos obrigados a vender as lojas e a abandonar os empregos.

Muitos dos que conseguiram fugir do país tiveram muita dificuldade em emigrar porque a maioria dos países não os aceitava. A partir de Outubro de 1941, foi proibida a emigração de judeus. Como muitos outros, eu e a minha família ficámos aprisionados dentro do país.

No início de 1942 quendo fiz catorze anos, a minha família foi toda presa pelos alemães. Fomos enviados para Theresienstadt na Checoslováquia. Eu e a minha irmã fomos separadas dos meus pais e enviadas para uma casa de crianças judias. Só podíamos estar com os meus pais um bocadinho ao fim do dia. O campo de concentração onde vivíamos estava sobrelotado e não tinha nenhumas condições sanitárias. Eu vi muitos amigos morrer de fome e de doença. Muitas vezes levavam grandes grupos de pessoas para campos de trabalho na Polónia. 

Em Maio de 1943, levaram-nos, a mim e a toda a minha família para um novo campo de concentração chamado Auschwitz.

Ao chegar a Auschwitz, Margot foi enviada para as barracas das mulheres e ali trabalhou como escrava para os alemães e suportou as mais incríveis dificuldades. A sua irmã mais nova Lore foi executada alguns meses mais tarde. Margot sobreviveu.


 

Samuel Oliner
lido por: Rodrigo Coelho e Silva Pinto


O meu nome é Samuel e sou o filho de Aron e Jaffa Oliner. Toda a minha vida vivi na quinta dos meus avós que fica na parte oriental da Polónia. O meu pai tem alguns terrenos agrícolas e é dono de uma loja de ferragens. Tenho um irmão mais velho e uma irmã. A minha mãe morreu quando eu tinha sete anos. O meu pai casou-se outra vez e eu fiquei a viver com os meus avós maternos.

Quando os alemães invadiram a Polónia eu tinha nove anos e andava na escola. Mal chegaram, os alemães impuseram medidas terríveis sobre os judeus. Fomos obrigados a usar a estrela no braço a toda a hora, todos os dias; isto é terrível porque somos obrigados a fazer tudo o que queiram que façamos. Muitos judeus são agredidos a propósito de nada na rua, sem culpa nenhuma. Quem recusa fazer alguma coisa que um alemão diga para fazer é imediatamente fuzilado. Tudo quanto tínhamos foi confiscado pelos nazis. Por causa disto fui viver com o meu pai, a sua nova mulher e dois meios-irmãos.

Em Julho de 1942, fomos forçados a abandonar a quinta e fomos levados para Bobowa, uma vila pequena onde quase todos eram judeus. Vivíamos na parte velha da vila, o ghetto. O Ghetto é sobrelotado, não há comida, não há medicamentos e há muitas doenças. Um dia, os alemães entraram violentamente no ghetto e, ao acaso, bateram brutalmente nos residentes e levaram os homens mais fortes, as raparigas e os trabalhadores. Nunca mais os vimos.

Nas ruas dos ghettos morre-se de fome e de doença. Há cadáveres que ninguém recolhe. Como sou pequeno de vez em quando consigo sair do ghetto por um buraco e roubar alguma comida para trazer. Tenho de ter muito cuidado para não ser apanhado, como outros já foram.

No dia 14 de Agosto, os alemães levaram muitos dos judeus do ghetto e fuzilaram-nos numa floresta aqui perto. A minha madrasta conseguiu enganar os guardas e eu fugi, sozinho. Corri para o campo. Depois de andar dois dias, uma camponesa arriscou a sua vida e ensinou-me a fingir-me não-judeu. Deu-me roupas novas e um nome novo. Ensinou-me a ler polaco e aprendi o catecismo católico. 

Quando me senti preparado, saí daquela casa e fui à procura de emprego numa aldeia onde não era conhecido de ninguém. Passei a tomar conta de umas vacas numa quinta que tinha pertencido a judeus e tinha sido comprada por polacos que não sabiam nada de quintas. Precisavam de ajuda. Vivi assim três anos. Nunca disse a ninguém de onde vinha ou quem eu era na realidade. Em Março de 1945 os russos libertaram a Polónia. Quando os alemães foram embora, eu tinha já quinze anos. 
 

Por uma combinação de sorte e esperteza Samuel conseguiu escapar do holocausto nazi. Só muitos meses depois de acabar a Guerra é que Samuel revelou a sua identidade. E só o fez porque muitos judeus sobreviventes começavam também a fazê-lo. O pesadelo tinha terminado. Abandonou a quinta e foi à procura da sua família. Descobriu então que ele foi o único sobrevivente.
 

Cary Krell
lido por: Ana Cristina Matos


O meu nome é Cary Krell, a minha mãe chama-se Diana Rosenzweig e o meu pai chama-se Willi Krell. Eu nasci em Viena, na Áustria. O meu pai era director de uma fábrica de tecelagem. Em Abril de 1938, quando a Alemanha anexou a Áustria, a minha família abandonou Viena e fomos para a Polónia, porque o meu pai arranjou lá um emprego como contabilista, na cidade de Boryslaw.

Quando os alemães entraram em Boryslaw, eu tinha cinco anos e meio. Logo atrás das primeiras tropas alemãs chegaram os Einsatzgruppen, os pelotões de fuzilamento. No princípio, os judeus que ali viviam foram usados como mão-de-obra para as satisfazer as necessidades que os alemães tinham. Mesmo assim, muitos amigos nossos foram fuzilados ou desapareceram para campos de trabalho forçado.

O meu pai trabalhou para os alemães durante algum tempo na administração das contas. No Verão de 1944, fomos levados, juntamente com os últimos judeus que viviam em Boryslaw, para o campo de concentração de Plaszow.

Em Outubro fomos outra vez enviados para outro campo de concentração em Gross-Rosen. Ao chegarmos, levaram a minha mãe para Auschwitz onde foi imediatamente executada nas câmaras de gás. Para me salvar, o meu pai vestiu-me de rapaz e levou-me para uma barraca onde sobreviviam mais 400 homens, Só havia uma casa de banho. Todos os dias tínhamos de fazer formaturas onde tínhamos de estar de pé às vezes durante horas sob a neve. Eu só tinha socas de madeira para calçar.

Um dia, um rapaz que estava na barraca viu-me na casa de banho e descobriu que eu era uma rapariga. Ele denunciou-me aos alemães. Separaram-me do meu pai e enviaram-me para as barracas das mulheres. Estávamos no Inverno. Quase não havia comida, as condições sanitárias eram horrendas e todos os dias alguém morria por causa das muitas doenças que ali se espalhavam. O meu pai oferecia-se para todos os trabalhos só para passar pela minha barraca  e poder olhar para mim uma vez que fosse. Um dia, deixou de aparecer.
 

Enfraquecida pela fome, e pelas pavorosas condições de higiene, Cary morreu de tifo no dia 6 de Janeiro de 1945, poucas semanas antes de fazer nove anos e de o campo ser libertado.
 


 
 

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