| Sendo as crianças
o elo mais fraco de um qualquer conflito armado, são elas a primeira
pessoa que importa preservar do horror da guerra. São, porém,
elas as suas primeiras vítimas. Não apenas pela sua fragilidade,
que é abrupta e despudoradamente sujeita ao arbítrio da crueldade,
mas por ser tão absoluta a sua inocência.
E, no entanto, são incontáveis os casos em que a sua vulnerabilidade perante a mais absurda violência é, no fim de contas, apenas contingente. Os exemplos de heroísmo e perseverança que nos transmitem, por vezes apenas décadas passadas, são tão numerosos quanto comoventes e inspiradores. As crianças são a primeira voz da guerra. Ouvi-las é conhecer a imaculabilidade na primeira pessoa. A conflagração entre a inocência e a iniquidade é talvez o único maniqueísmo aceitável, talvez mesmo a derradeira intransigência humana. Deste confronto resulta um apego irreprimível aos - sempre elusivos - valores universais que a todos nos unem. O exemplo destas crianças conduz-nos a essa utopia insubstituível da espécie humana, pela qual as crianças são, têm de ser, a primeira pessoa. A presente acção intitula-se justamente por isto, "a primeira pessoa" e associa-se às comemorações do “Dia Internacional de Comemoração em Memória das Vítimas do Holocausto”, dia 27 de Janeiro, proclamado pelas Nações Unidas em Novembro de 2005. Ela pretende recordar, com simplicidade, através de uma reflexão conjunta entre professores de história e alunos do 7º e 9º ano da Escola Básica Integrada de Sto. Onofre, a dimensão humana de uma catástrofe que conduziu à eliminação física de cerca de um milhão e meio de crianças na Europa, de 1941 a 1945. Culminando um trabalho de pesquisa sobre o Shoah, os alunos do 9º ano são chamados a apresentar oralmente os seus estudos, para um enquadramento histórico do tema. Seguindo uma metodologia de role playing, alunos do 7º ano de escolaridade lerão aos alunos do 9º ano depoimentos de crianças que atravessaram o pesadelo da ocupação nazi e dos quais resultaram registos biográficos que os historiadores resgataram e que aqui se reproduzem, traduzidos pela primeira vez para língua portuguesa. Os textos, historicamente fidedignos, foram objecto de depuração científica e foram adaptados, linguística, histórica e emocionalmente, para poderem ser lidos por jovens adolescentes, numa instante preocupação pedagógica de adequação etária. No final segue-se um período de debate colectivo em que se procura não apenas intirar historicamente os acontecimentos aqui revividos mas promover uma discussão crítica sobre os fenómenos plurais da discriminação étnica, sexual, económica, nos nossos dias. Será lançado um desafio para os alunos estudarem mais sobre o tema e publicarem os seus documentos originais na plataforma moodle do departamento de ciências sociais e humanas, bem como no jornal da escola. “a primeira pessoa” constitui uma iniciativa do departamento de ciências sociais e humanas da Escola Básica Integrada de Sto. Onofre, Caldas da Rainha e conta com a colaboração da Auschwitz Teachers Network, um grupo de professores europeus que trabalha as questões do Shoah, sediado telematicamente na plataforma moodle deste estabelecimento de ensino. "a primeira pessoa” conta com a colaboração da Dra. Filomena Branco, Dra. Cristina Meneses, Dra. Cecília Pimenta e Sra. D. Teresa Lourenço.
Nota: didacticamente, esta iniciativa identifica-se com o conceito promovido pela Bradley Commission on History in Schools report (1988) pelo qual o ensino da história deve encorajar a utilização da narrativa e os estudos de caso como forma de testar e ilustrar conceitos retirados de outras matérias de estudo, cuja reapreciação "realista" importa um significado mais completo para o registo histórico. Neste sentido, muito se beneficiaria em reavaliar hoje o que realmente é necessário que se estude na disciplina de história. O processo de criar e desenvolver estratégias de raciocínio e autonomia intelectual envolve uma vocação estruturante de submeter o estudante de história a um confronto com situações reais, dilemáticas, que impliquem um posicionamento pessoal, que, consistentemente acompanhado pelo professor, clarifique a consciência da complexidade de todo o acto decisório. |
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