| Os trabalhos começaram por uma
discussão colectiva sobre alguns dos principais problemas do nosso
tempo e de como podemos dar um qualquer contributo para aliviar alguns
deles. Dessa reflexão conjunta resultaram numerosas referências
à violência.
Na verdade, estamos rodeados de violência. Violência nos jogos vídeo, nas ruas, nas escolas, nos jornais, na televisão, na linguagem, no trânsito, nos lares, no desporto. No entanto quase todos os alunos referiram não ter sido sujeitos a situações de violência. Existe, pois, uma violência real e uma violência fictícia. Aqui chegada, a discussão estabeleceu a seguinte controvérsia. Será que a violência, que, de facto, existe, é aquela que conhecemos? Ou seja, será que o mundo que nos é dado a conhecer é mais ou menos violento do que aquilo que nos é dado a conhecer todos os dias? Será que nos são dados a conhecer mais acontecimentos violentos do que acontecimentos pacíficos? Tirará alguém alguma vantagem em dar a conhecer as ditas “más notícias” em vez das “boas notícias”? Como funciona este mecanismo? Se estivermos de acordo que existe uma desmesurada prevalência de “más notícias” nos jornais, que tipo de influência pode ter nas pessoas essa constante chuva de más notícias a que nós todos, todos os dias estaremos a ser sujeitos? A violência gera medo e ira. Existirá uma intenção deliberada de gerar medo entre as pessoas? Haverá alguém que lucra por se instalar o medo entre as pessoas? Se concordarmos que a violência a que somos submetidos diariamente é muito menor do que aquela que vem noticiada nos jornais, então que efeito terá isto na visão que temos do mundo? Será que o pessimismo cínico que hoje está tão vulgarizado nos é afinal ensinado todos os dias? Como pode alguém achar que o mundo pode ser melhor se todos os dias nos dão a conhecer situações horríveis que parecem demonstrar exactamente o contrário? De que vale a pena contribuir para um mundo melhor, quando nos ensinam que o mundo e a vida humana estão sempre em risco? Valerá o esforço? Ou será simplesmente que o que nos dão a conhecer é apenas uma parte da realidade? E que aquilo que sempre achámos é mesmo verdade: que não se deve acreditar em tudo o que lemos e ouvimos nos jornais? Será que conhecemos demasiada violência, apenas porque vende mais? Será que a violência vende, e que há quem saiba disso muito bem? E que, por isso mesmo, se invista tanto no medo e na violência? Por causa do mais banal dos incentivos? O dinheiro? Tendo estas reflexões em mente, os alunos das turmas C e D do oitavo ano prepararam uma exposição, que se pretendeu o mais extensa possível, na qual se pretende demonstrar a incidência das más notícias no nosso quotidiano. Para tal, cada aluno ficou responsável por recortar de jornais regionais e nacionais, as expressões de violência que surgem nos textos jornalísticos e ocupar com elas uma tela quadrada com 40 centímetros de lado. São quarenta telas onde surgem recortes de notícias reais publicadas entre Outubro de 2007 e Janeiro de 2008. Não se pretendeu fazer um levantamento de notícias, mas sim de expressões de violência. É afinal da repetição constante destas que tantas vezes se enchem os nossos dias e as nossas frustrações. A maioria das vezes sem fundamento nenhum. O exagero e as repetições de expressões violentas, algumas delas requintadamente sanguinárias, foram sendo assinalados e essas expressões individualmente seleccionadas e recortadas. Todos os alunos foram convidados a ler em voz alta as notícias que achassem que revelavam este exagero e esta vontade de gerar terror. Dessas leituras e respectivo comentário pôde fazer-se a devida desconstrução e a exacta interpretação da mensagem. Trazê-la para um tempo real. Estas leituras colectivas permitiram “limpar” a notícia de tudo o que tem “a mais”, (como adjectivos mais ou menos cruéis e violentos, expressões que representam inúteis juízos de valor, previsões sobre as consequências negativas possíveis que resultam dos eventos, chantagens e ameaças sobre o leitor). Estas leituras atentas das más notícias ajudam a criar nos alunos uma técnica de leitura que promove o seu espírito crítico e alguma imunidade humorada perante os constantes exageros jornalísticos com que se deparam. Deste modo preparando-nos a todos para uma desmontagem do processo de produção de textos sensacionalistas, que visam criar o desassossego e a indignação do público leitor. |