Temos boas e más notícias. Por onde começar?

Comecemos pelas más: todos os dias acontecem coisas más.
Agora, as boas: todos os dias acontecem coisas boas.

E, no entanto, se quisermos saber das coisas boas teremos alguma dificuldade. Quanto às más, basta abrir o jornal. Qualquer jornal. As más notícias preenchem a quase totalidade das notícias. É um paradoxo: todos ouvimos dizer que ninguém gosta de quem traz más notícias. Mas será isto verdade? O facto é que as más notícias vendem muito. As boas nem por isso.

Os media são os portadores de más notícias e, aparentemente, gostamos deles. Muito. Compramos os jornais por terem más notícias. E os jornais sabem disso. E fazem o culto das más notícias. Por uma razão. A habitual. Dinheiro. Mas más notícias não significam mau jornalismo. Mau jornalismo é, por exemplo, o aproveitamento macabro dos detalhes de um homicídio. Descer às perícias, às minúcias e repeti-las. Lentamente. Repeti-las. Repetidamente. É a versão em papel do replay vídeo. Repetir o sórdido e repetir o inútil, repetir o horror até à exaustão. A exaustão do sentimento.

Quando uma notícia de duas colunas sobre um homem que foi esfaqueado no coração repete seis vezes a expressão “esfaqueado no coração” não estamos na presença de jornalismo. Não é sequer jornalismo. Chama-se-lhe sensacionalismo como se as boas notícias não agitassem sensações também. Não é sensacionalismo. É apenas replay e ganância. O inevitável é atingirmos uma desvitalização da sensibilidade.

Como se sentirá um pai, uma mãe ao ler nos jornais que o seu filho foi morto à “martelada”, à “navalhada”, à “machadada”, à “facada”, à “chumbada”, à “sacholada”. Esta insensibilização vai, como qualquer vício, exigindo uma dose maior de crueza, de crueldade. E maior, maior, maior até chegarmos lá, a esse lugar menor onde ninguém quer chegar. Ao lugar onde as más notícias chegam a dar a impressão que nada de bom acontece. À mentira, portanto. 

O presente trabalho procura denunciar essa mentira. Pegámos no estratagema do mau jornalismo: a repetição da mentira até à exaustão até que pareça mesmo verdade que o mundo e a vida são dois lugares malignos.

Aborrecidos por tanta má notícia, atirámo-nos aos jornais e fomos à procura das más notícias e repetimo-las, repetimo-las, repetimo-las até que se perceba como funciona este mecanismo que injecta o terror, o medo na vida de cada leitor. O medo é, afinal, o grande motor. Quanto mais medo tivermos, mais domináveis todos seremos. Nuvens de abelhas assassinas, tsunamis algarvios, cataclismos ambientais, vizinhos homicidas, pandemias bovinas, redes pedófilas, espionagem, corrupção e muita, muita violência são a nova pornografia do medo.

Este não é, ao contrário do que possa parecer, uma colecção doentia e mórbida de factos negativos. Não é sequer uma recolha de factos. Trata-se, pelo contrário, da exibição de um único facto. O de que a análise crítica dos media que nos rodeiam é indispensável para assegurar a serenidade que a paz sempre prescreve.

Não é também uma rejeição cínica da realidade. É a demonstração material de uma outra certeza bem mais real: a de que estamos imersos num sistema de manipulação que pretende subjugar cada cidadão a um medo paralisador, nascido da violência e que orienta cada um de nós para o individualismo, o conformismo e a eliminação de toda a solidariedade. É a lição diária que entoa: “salve-se quem puder”. 

Diariamente, as imagens explícitas apresentadas em tempo real mostram-nos um tempo mentiroso. Um tempo irreal. Um tempo de horror que quase nos leva a concluir que esta não é uma vida que valha a pena viver. Isto, claro, se acreditarmos em tudo o que lemos nos jornais. Felizmente, como todos sabemos, existe vida para além dos jornais. Muita vida. E esse tempo é que é o tempo real.
 

Nota: de acordo com o jornal de hoje, vêm aí “as piores cheias das últimas décadas”.


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